Não sei quando nasci, não me importam as vias do calendário cristão. Sei apenas que vivo submergida entre meu acerto final de contas comigo mesma e a premissa de que horas vivas ou mortas estejam à porta de um círculo que se esconde entre os demais. Sou medieval, confesso, e uso alquimias de fundo de cozinha. Vejo, contudo, nessas maquinarias do século vigente, a possibilidade de abrir janelas, deixando às venezianas um pouco do meu sussurro. Não quero engravidar possíveis solidões. Quero a lucidez desse dia em vislumbre. Quero estar saciada de amor à margem da ilusão.
Maria maria
Quando eu era criança, no Seridó, a minha infância tinha a singularidade que têm todas as infâncias. Havia mitos e lendas, histórias criadas pelas gerações antepassadas e histórias recriadas. Uma delas, era a de que beber Água de Chocalho apressava a fala das crianças. Eu devo ter bebido desse licor adoçado com açúcar e serenado pela lua. Talvez por isso, goste tanto de conversar e também de ficar acordada a noite inteira pensando em girassóis e girassóis.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
domingo, 15 de agosto de 2010
A DIALÉTICA DO TEMPO
O tempo é dialético. Nós é que pensamos em torná-lo estático, imóvel e, nunca, efêmero. Desejamos retardá-lo como se assim o fosse; um retardado, um tolo, um não sei quê estabilizado.
Usamos cosméticos, achando que, só assim, impediremos de passar. Compramos adornos e nos enfiamos em clínicas especializadas em rejuvenescimento físico. Gastamos o pouco que temos em pomadas, géis, cremes e uma parafernália de fórmulas químicas como se fôssemos alquimistas da juventude desenfreada.
O mundo gira em torno de nós, mas não paramos de girar em torno dele no sentido oposto; ou talvez o fazemos, quando ludibriamos a mente na esperança de não envelhecer.
Acabamos sendo companhia indesejável de nós mesmos, por não acompanharmos o ritmo do tempo. E somos mentirosos. Mentimos a nossa idade, a dos outros e mentimos, principalmente, para nós mesmos.
Enquanto o mundo gira há em nós, no calabouço final do porão, a preocupação com a estética da alma. Esta, por sua vez, permanece fora do contexto (corpo e alma) e desaparece da unidade como se os dois elementos fossem dissociados.
O certo é que o inevitável acontece; a morte existe. Ninguém permanece jovem para sempre. Porém a eternidade é como um rio perene, jamais mata o espírito, pois o seu sentido é a existência infinita.
Maria Maria
Usamos cosméticos, achando que, só assim, impediremos de passar. Compramos adornos e nos enfiamos em clínicas especializadas em rejuvenescimento físico. Gastamos o pouco que temos em pomadas, géis, cremes e uma parafernália de fórmulas químicas como se fôssemos alquimistas da juventude desenfreada.
O mundo gira em torno de nós, mas não paramos de girar em torno dele no sentido oposto; ou talvez o fazemos, quando ludibriamos a mente na esperança de não envelhecer.
Acabamos sendo companhia indesejável de nós mesmos, por não acompanharmos o ritmo do tempo. E somos mentirosos. Mentimos a nossa idade, a dos outros e mentimos, principalmente, para nós mesmos.
Enquanto o mundo gira há em nós, no calabouço final do porão, a preocupação com a estética da alma. Esta, por sua vez, permanece fora do contexto (corpo e alma) e desaparece da unidade como se os dois elementos fossem dissociados.
O certo é que o inevitável acontece; a morte existe. Ninguém permanece jovem para sempre. Porém a eternidade é como um rio perene, jamais mata o espírito, pois o seu sentido é a existência infinita.
Maria Maria
domingo, 8 de agosto de 2010
Tentativas
Minhas tentativas frustradas de escritora me fazem acreditar que todo o dia é dia de palavra, menos os domingos, com toda a sua prepotência e arrogância de ser singular. Mas o fato é que hoje me sinto carrasca ou algoz de meus pensamentos desvairados.
Sento aqui, nessa cadeira vermelha (nem é minha cor preferida), e entro no século XXI acessando uma máquina portátil que esquenta meus dedos e engole minhas palavras. Fico mesmo sem saber o que dizer o ou escrever diante desse cinza que cobre minhas primeiras imagens transformadas em primaveras.
Minhas primeiras ideias outonais se configuram em pintassilgos e pardais, mesmo não entendendo bem de pássaros, talvez de asas, eu entenda um pouco. Tenho certo caminhar ao longo da minha vida de 43 e pegadas formam os caminhos que se transformam em experiências alquímicas de uma seridoense da gema da scheelita.
Maria Maria
Sento aqui, nessa cadeira vermelha (nem é minha cor preferida), e entro no século XXI acessando uma máquina portátil que esquenta meus dedos e engole minhas palavras. Fico mesmo sem saber o que dizer o ou escrever diante desse cinza que cobre minhas primeiras imagens transformadas em primaveras.
Minhas primeiras ideias outonais se configuram em pintassilgos e pardais, mesmo não entendendo bem de pássaros, talvez de asas, eu entenda um pouco. Tenho certo caminhar ao longo da minha vida de 43 e pegadas formam os caminhos que se transformam em experiências alquímicas de uma seridoense da gema da scheelita.
Maria Maria
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Aurora boreal
Eu tive um tempo. Um tempo “vazio”. Não havia promessas, nem expectativas, nem sonho. Talvez poesia. Sim, poesia havia. E lembro, com certa nitidez, de um vento. Não sei bem dele, se era vento norte, sul ou estrangeiro, porém era um vento docemente sensato comigo.
Naquela época eu enfrentava leões, dragões, serpentes ou o que viesse à minha frente. Talvez fosse mais inocente e não pensasse nas conseqüências dos fatos.
Esse tempo tão livre e meu era propriedade privada e lá eu abria janelas, fechava portões, guardava as torres como a proteger-me.
Eu era muito feliz naquela estação temporal e tinha caneta, papel e imaginação.
Não cuidava do jantar e nem esperava o marido. As companhias inseparáveis e mel eram minhas asas. Sim, as asas me levavam ao relógio de Londres, aos Moinhos Holandeses e as Cataratas do Iguaçu.
Eram momentos dourados porque eu tinha 18 anos e esses eram tempos de ouro, de aurora boreal.
Maria Maria
Naquela época eu enfrentava leões, dragões, serpentes ou o que viesse à minha frente. Talvez fosse mais inocente e não pensasse nas conseqüências dos fatos.
Esse tempo tão livre e meu era propriedade privada e lá eu abria janelas, fechava portões, guardava as torres como a proteger-me.
Eu era muito feliz naquela estação temporal e tinha caneta, papel e imaginação.
Não cuidava do jantar e nem esperava o marido. As companhias inseparáveis e mel eram minhas asas. Sim, as asas me levavam ao relógio de Londres, aos Moinhos Holandeses e as Cataratas do Iguaçu.
Eram momentos dourados porque eu tinha 18 anos e esses eram tempos de ouro, de aurora boreal.
Maria Maria
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