Nem preciso falar das idiossincrasias que dissemos certo tempo memorial. Tenho horror a detalhes, mesmo sabendo que estes dizem muitíssimo sobre nossos reais sentimentos. Mas sinto, como necessidade vital, o desejo de viver a intensidade dos atuais acontecimentos.
Hoje, minha visão encontra-se voltada para as alegrias presentes e viver essa etapa me possibilita a compreensão do que essencialmente sou. Não careço de informações adicionais sobre o que fazes com seu tempo e com suas escolhas, preciso é me abster do passado e do futuro. O presente me enriquece de verdades totalmente não absolutas. Sou incerta como as manhãs.
Se a vivência não nos legou continuidades é porque estancou o seu curso. Ou porque a hora determinada pelo destino já chegou.
Sejamos justos conosco e honestos com o universo. Fechemos, portanto, a porta para descansar. Amanhã, os pássaros cantarão novamente, mesmo que o sol ainda esteja adormecido. Não desperte o sol até que ele acorde por si e auroras, manhãs, gotas de chuva, miados de gatos e frutos da algaroba resolvam saudar as luzes inconstantes do novo dia nesse árido chão seridoense.
Maria Maria
Quando eu era criança, no Seridó, a minha infância tinha a singularidade que têm todas as infâncias. Havia mitos e lendas, histórias criadas pelas gerações antepassadas e histórias recriadas. Uma delas, era a de que beber Água de Chocalho apressava a fala das crianças. Eu devo ter bebido desse licor adoçado com açúcar e serenado pela lua. Talvez por isso, goste tanto de conversar e também de ficar acordada a noite inteira pensando em girassóis e girassóis.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
sábado, 2 de outubro de 2010
Chuvas: Bom ou mal tempo?
Quando éramos crianças, brincávamos de poças de chuvas, de açudes construídos com nossas mãos pueris, com jogos de pedrinhas certeiras nas águas que desciam dos olhos de Deus.
Época em que as chuvas eram definidas pelos meses. Se não me engano, fevereiro (mês das frutas doces), março e abril. Os meses que se seguiam eram de frio intenso até agosto que já se preparava para a “nossa” primavera. Era uma primavera tão possessiva porque Bom-dia e Boa-noite nos saudavam todos os dias pelos terreiros da pacata cidade e por isso, era absolutamente “nossa”, sem analogia a países europeus.
Interessante! Tudo tinha gosto de alegria quando a chuva chegava à região do Seridó. O que era de vida se enfeitava e as tardes familiares, os banhos de chuva nas biqueiras das lojas na Praça Tomaz Salustino e ruas do centro de Currais Novos representavam momentos singulares a todos e a cada um de acordo com a sua perspectiva.
Ao longo dos anos, percebo que o tempo se configura de forma diferente. O nosso bom tempo é aquele em que as nuvens cúmulos-nimbos se engravidam para derramar sobre nós as bênçãos dos céus, ao contrário de outras regiões, onde esse tempo de chuvas é considerado mau tempo. Enfim, a chuva no Sertão seridoense é a esperança de um povo vigoroso.
"O sertanejo é antes de tudo um forte". Citação de Euclides da Cunha em seu famoso livro "Os Sertões. A verdade é que a fortaleza desse homem do campo não se encontra apenas na força física, mas na religiosidade, na fé em São José e em Sant`Ana e na resiliência, termo que a psicologia tomou emprestado da física, definindo-a como a capacidade do indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas - choque, estresse, etc.
Apesar do aquecimento global, do efeito estufa e das ações antropogênicas (provocadas pelo homem), além de outros fatores que vêm causando ruínas e alterações no eixo da terra e em toda a sua extremidade, sentimos a dor daqueles que perderam as famílias em terremotos, em cidades próximas a vulcões em erupção. Mesmo assim, a chuva é fundamental para a produção de alimentos que beneficiarão tanto o homem do campo quanto o da cidade, a flora e a fauna sertanejas.
O tempo e as suas transformações climáticas não trarão as mesmas sinestesias: o cheiro, o som, a voz e visão daquelas tardes de chuva, porque como disse Heráclito de Éfeso "Um homem não entra duas vezes no mesmo rio. Da segunda vez não é o mesmo homem nem o mesmo rio". É claro que as emoções não se repetem, elas chegam de modos diferentes, nós as sentimos com um olhar novo, com um coração esperançoso de que o inverno nos trará sempre as boas novas, nos trará abundância e fartura na mesa do nosso povo.
E assim, caminhando por esse século de tecnologia avançada, de velocidade, de inovações agrícolas, de descobertas científicas e de questionamentos, o povo que ama a sua terra espera, ansioso, por um era de boa-venturança, de alegrias, paz e fertilidade no chão dos índios cariris.
Por Maria Maria
Escritora e Poeta
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Sentimentos de Amarílis
Há uma fragilidade voando feito folha seca pelo ar. Se há primavera, eu não sei. Sei apenas que estou mudando de pele como cobras sibilantes, embora tenha medo de cobras. É assim que me sinto nesse tempo de flor escondida ou flor que não desabrochou ou ainda, flor que espera seu tempo. Há anos não me apaixono por alguém, nem sinto o fogo, o desejo, o entusiasmo pelo outro. Nunca mais beijei uma boca de beijo bom. Isso me deixa diferente do que sou e penso que não estou mais anfitriã de mim mesma. Minha casa, meu porto seguro matinal, só ouve as minhas falas e meus questionamentos. Não sei em qual dimensão me encontro agora. No calendário real estou vivendo em fins de setembro deste século vinte e um, porém no meu universo paralelo e atemporal vivo indefinida como a dor de estar só. Pareço-me a folha de uma árvore asiática que vem cruzando ventos e cortando brisas para este continente tão americanamente fugaz. O que me acalma e me mantém sóbria é o cheiro de algaroba quando o redemoinho atravessa meu quintal e deixa todo telhado em cio de gata ou logo que a manhã nasce seridoana com seu aroma sertanejo de gado berrando. Enfim, mantenho-me à espera de um tempo acigânico onde eu possa envelhecer soberana e feliz.
Maria Maria
Maria Maria
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Calendário
Não sei quando nasci, não me importam as vias do calendário cristão. Sei apenas que vivo submergida entre meu acerto final de contas comigo mesma e a premissa de que horas vivas ou mortas estejam à porta de um círculo que se esconde entre os demais. Sou medieval, confesso, e uso alquimias de fundo de cozinha. Vejo, contudo, nessas maquinarias do século vigente, a possibilidade de abrir janelas, deixando às venezianas um pouco do meu sussurro. Não quero engravidar possíveis solidões. Quero a lucidez desse dia em vislumbre. Quero estar saciada de amor à margem da ilusão.
Maria maria
Maria maria
domingo, 15 de agosto de 2010
A DIALÉTICA DO TEMPO
O tempo é dialético. Nós é que pensamos em torná-lo estático, imóvel e, nunca, efêmero. Desejamos retardá-lo como se assim o fosse; um retardado, um tolo, um não sei quê estabilizado.
Usamos cosméticos, achando que, só assim, impediremos de passar. Compramos adornos e nos enfiamos em clínicas especializadas em rejuvenescimento físico. Gastamos o pouco que temos em pomadas, géis, cremes e uma parafernália de fórmulas químicas como se fôssemos alquimistas da juventude desenfreada.
O mundo gira em torno de nós, mas não paramos de girar em torno dele no sentido oposto; ou talvez o fazemos, quando ludibriamos a mente na esperança de não envelhecer.
Acabamos sendo companhia indesejável de nós mesmos, por não acompanharmos o ritmo do tempo. E somos mentirosos. Mentimos a nossa idade, a dos outros e mentimos, principalmente, para nós mesmos.
Enquanto o mundo gira há em nós, no calabouço final do porão, a preocupação com a estética da alma. Esta, por sua vez, permanece fora do contexto (corpo e alma) e desaparece da unidade como se os dois elementos fossem dissociados.
O certo é que o inevitável acontece; a morte existe. Ninguém permanece jovem para sempre. Porém a eternidade é como um rio perene, jamais mata o espírito, pois o seu sentido é a existência infinita.
Maria Maria
Usamos cosméticos, achando que, só assim, impediremos de passar. Compramos adornos e nos enfiamos em clínicas especializadas em rejuvenescimento físico. Gastamos o pouco que temos em pomadas, géis, cremes e uma parafernália de fórmulas químicas como se fôssemos alquimistas da juventude desenfreada.
O mundo gira em torno de nós, mas não paramos de girar em torno dele no sentido oposto; ou talvez o fazemos, quando ludibriamos a mente na esperança de não envelhecer.
Acabamos sendo companhia indesejável de nós mesmos, por não acompanharmos o ritmo do tempo. E somos mentirosos. Mentimos a nossa idade, a dos outros e mentimos, principalmente, para nós mesmos.
Enquanto o mundo gira há em nós, no calabouço final do porão, a preocupação com a estética da alma. Esta, por sua vez, permanece fora do contexto (corpo e alma) e desaparece da unidade como se os dois elementos fossem dissociados.
O certo é que o inevitável acontece; a morte existe. Ninguém permanece jovem para sempre. Porém a eternidade é como um rio perene, jamais mata o espírito, pois o seu sentido é a existência infinita.
Maria Maria
domingo, 8 de agosto de 2010
Tentativas
Minhas tentativas frustradas de escritora me fazem acreditar que todo o dia é dia de palavra, menos os domingos, com toda a sua prepotência e arrogância de ser singular. Mas o fato é que hoje me sinto carrasca ou algoz de meus pensamentos desvairados.
Sento aqui, nessa cadeira vermelha (nem é minha cor preferida), e entro no século XXI acessando uma máquina portátil que esquenta meus dedos e engole minhas palavras. Fico mesmo sem saber o que dizer o ou escrever diante desse cinza que cobre minhas primeiras imagens transformadas em primaveras.
Minhas primeiras ideias outonais se configuram em pintassilgos e pardais, mesmo não entendendo bem de pássaros, talvez de asas, eu entenda um pouco. Tenho certo caminhar ao longo da minha vida de 43 e pegadas formam os caminhos que se transformam em experiências alquímicas de uma seridoense da gema da scheelita.
Maria Maria
Sento aqui, nessa cadeira vermelha (nem é minha cor preferida), e entro no século XXI acessando uma máquina portátil que esquenta meus dedos e engole minhas palavras. Fico mesmo sem saber o que dizer o ou escrever diante desse cinza que cobre minhas primeiras imagens transformadas em primaveras.
Minhas primeiras ideias outonais se configuram em pintassilgos e pardais, mesmo não entendendo bem de pássaros, talvez de asas, eu entenda um pouco. Tenho certo caminhar ao longo da minha vida de 43 e pegadas formam os caminhos que se transformam em experiências alquímicas de uma seridoense da gema da scheelita.
Maria Maria
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Aurora boreal
Eu tive um tempo. Um tempo “vazio”. Não havia promessas, nem expectativas, nem sonho. Talvez poesia. Sim, poesia havia. E lembro, com certa nitidez, de um vento. Não sei bem dele, se era vento norte, sul ou estrangeiro, porém era um vento docemente sensato comigo.
Naquela época eu enfrentava leões, dragões, serpentes ou o que viesse à minha frente. Talvez fosse mais inocente e não pensasse nas conseqüências dos fatos.
Esse tempo tão livre e meu era propriedade privada e lá eu abria janelas, fechava portões, guardava as torres como a proteger-me.
Eu era muito feliz naquela estação temporal e tinha caneta, papel e imaginação.
Não cuidava do jantar e nem esperava o marido. As companhias inseparáveis e mel eram minhas asas. Sim, as asas me levavam ao relógio de Londres, aos Moinhos Holandeses e as Cataratas do Iguaçu.
Eram momentos dourados porque eu tinha 18 anos e esses eram tempos de ouro, de aurora boreal.
Maria Maria
Naquela época eu enfrentava leões, dragões, serpentes ou o que viesse à minha frente. Talvez fosse mais inocente e não pensasse nas conseqüências dos fatos.
Esse tempo tão livre e meu era propriedade privada e lá eu abria janelas, fechava portões, guardava as torres como a proteger-me.
Eu era muito feliz naquela estação temporal e tinha caneta, papel e imaginação.
Não cuidava do jantar e nem esperava o marido. As companhias inseparáveis e mel eram minhas asas. Sim, as asas me levavam ao relógio de Londres, aos Moinhos Holandeses e as Cataratas do Iguaçu.
Eram momentos dourados porque eu tinha 18 anos e esses eram tempos de ouro, de aurora boreal.
Maria Maria
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