sábado, 28 de dezembro de 2013

A validade dos sentimentos

Ler é cultivar ideias! Foi o que pensei ao finalizar a leitura de um livro “quase” de auto-ajuda. Não é bem o meu estilo de leitura e nem se trata de um manual que orienta o seu modo de viver. Enfim, esse pequeno, de folhas amareladas, me fez repensar algumas situações da vida, abrir minhas compotas e deixar a força da correnteza carregar velhos lixos sociais incongruentes com o meu pensar e agir de hoje.
Reparei, à medida que o lia, o quanto os sentimentos são relevantes, não tanto pela força da correnteza anterior saída da minha represa, mas pela validade que eles possuem em nossas vidas.
Amor tem data de fabricação e lote, tem recomendações de como vivê-lo, dá um efeito imediato de euforia quando adoçado com paixão, levanta a nossa auto-estima e nos ajuda a esculpir outra figura dentro de nós, escova o ego e revitaliza o coração-que já se esquecera da dor passada-, faz um rebuliço danado em nós e nos outros. Todavia, convenhamos, “... por ser amor invade e fim?”
O amor tem data de validade, mas essa informação tão necessária, não vem nos rótulos que são oferecidos pelo mundo. A embalagem, às vezes, tem algo escamoteado, ambíguo e incoerente. Não há, na parte exterior, nenhum texto injuntivo, norteando a dosagem. Nós o usamos, em demasia, por conta própria, sem medida.
Quando percebemos, já estamos dependentes e, absolutamente, desapropriados de nós mesmos. É assim o amor: subversivo, deselegante, invasivo, autoritário e com certa dose de rebeldia.
Vi situações distintas sobre relações humanas, nesse livro devorado em poucos dias, e cheguei à conclusão de que os outros amores, a exemplo do amor bíblico bem apresentado em Corintos, versículo 13, tão generoso, manso e humilde, é o lado herói desse sentimento. Acontece que não vivemos em uma sociedade sem riscos e perdas, conhecemos o amor como algo que nos descompromete de nós mesmos, desempactando os poderes guardados nos confins de nossos eus. Só o amor desinteressado possui as qualidades citadas no maior livro cristão.
Hoje, o amor perdeu-se em si mesmo. É o anti-herói do mundo moderno e já está, para mim, com data de validade vencida. Outro tipo de sentimento pode até substituí-lo; só a título de sugestão, quem sabe a parceria entre respeito e solidariedade possa tornar-se o mel, que, segundo a ciência, é o único alimento que não vence jamais.
Depois de tudo dito, já fiz a minha escolha pelos próximos zilhões de anos: vou optar pelo mel, o que vier de sobra vai para o espaço se transformar em aurora boreal.


Maria Maria

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Asa


Não sei se quero falar da perda da minha asa, da plumagem que dourava no sol e do brilho que resplandecia toda manhã.
Eu vi o sertão acordar em mim, logo que o amarelo-canário apontava no horizonte e vi minhas nuances alçarem vôo num desespero sem fim. Senti meus músculos tremerem no canto oblíquo da boca e uma pequena cachoeira se formando na esquina dos meus olhos.
Tudo vi, mas recuei o choro e bloqueei a palavra.
A dor vinha rasgando a estrada como faz uma acauã quando voa rasante pelos caminhos de pedra e volta furando, bicando, abrindo fendas...
Às vezes, há solidões merecidas! E há aquelas que se instalam estrangeiras e fixam moradia por tempo indeterminado. Pior ainda, são as que carregam sob o braço um pergaminho, contendo os itens a serem observados naquela nova estadia atemporal.
Mas o tempo não é conivente com a solidão. Ele é nômade e livre. Por isso, e em respeito ao meu coração que pulsa cantando, acabei de tomar uma decisão:
Já está na hora de querer a minha asa de volta!

 Maria Maria Gomes

terça-feira, 18 de setembro de 2012

UM ENCONTRO NA REDE



No meio da tarde, quando o efeito tyndall adentrava a lateral da minha sala de estar, pus em prática o meu costumeiro jeito índio de sentar-me diante do computador.
            Acionei os botões que o colocava em funcionamento, enquadrei a cadeira no assoalho, entre um mosaico e outro, e dispus as nádegas numa cômoda posição, de forma, eu diria, erótica.
            Esperei, tranqüilamente, as janelas cibernéticas se descortinarem a minha frente, enquanto um simpático programa de comunicação instantânea saudava-me com um “oi!”. Respondi , de imediato, aquele apelo de praxe e retruquei um outro “oi?” desconcertado e interrogativo, por não reconhecer o endereço eletrônico de quem “navegava” do outro lado.
            Encetamos o diálogo simbólico com assuntos incomuns (para mim), pois o digitador com quem falava tecia comentários sobre armas nucleares. E esta não era uma boa deixa para principiar um diálogo informal, em se tratando de rede de comunicação virtual cujo propósito é estimular a busca por novos amigos.
            O assunto fluiu diferente, logo que comentei, sem nenhuma intenção, que o calor do Nordeste chegava a quase 40 graus. O homem, sem identidade definida, perguntou-me o que eu fazia para resistir à alta temperatura da região. E, sem pestanejar, pois considero a nudez natural, respondi: “se o tempo se faz quente, tiro a roupa, viro índia”. Ele riu da situação com os símbolos: “rsrsrsrsrsrsrs” e arriscou um bom comentário: “você deve se sentir livre sem roupa, não é?”
            Não me importando e até considerando interessante a temática, incitei a conversa, dizendo que as peças que me cobriam, naquele momento, se espalhavam pelo tapete, poltrona ou chão. Ele, surpreso, com a resposta, escreveu um “nossa!!!!” carregado de exclamações como a me dizer que tomara um choque, no bom sentido, é claro!
            No meio da comunicação, ele foi me provocando com expressões pouco sutis e eu, que não vejo maldade em certas coisas, e adorando a libidinagem verbal, retribuí com frases picantes.
            De repente, minhas partes íntimas começavam a molhar-se a cada palavra obscena digitada naquela máquina pálida que, diante de mim, figurava a idéia de realidade. Perguntei-lhe o nome; Eros, respondeu. E o seu? Helena. Não a de Tróia, naturalmente. O diálogo febril esfriou um pouco nesse momento de apresentação informal, contudo não apagou o fogo que crepitava nas vias cibernéticas, pois o outro me dizia que seu pênis queria saltar da calça e que precisava disfarçar.
            A conversa digitalizada ganhava de presente inúmeras reticências. Parei por alguns instantes para prender os cabelos, pois os fios, já úmidos do calor destas estâncias seridoenses, se misturavam no meu pescoço, causando um certo incômodo. Então eu os amarrei num gesto quase sensual e ao mesmo tempo mecânico.
            O cavalheiro, de pseudônimo Eros, confessou-me estar num local inapropriado para aquela atividade de cunho ou “punho” sexual, pois havia outros navegadores por ali e, portanto, seria uma indelicadeza de sua parte sair do ambiente, com o pênis ereto, mas que se deslocaria ao banheiro e logo retornaria à conversa.
            Enquanto ele se organizava, eu tecia a seguinte cena:
            “Ele entrou no banheiro, abriu o zíper e me imaginou índia. Talvez uma daquelas de cabelos negros-azulados e de peitos redondos, sem pêlos e olhos expressivamente ambíguos”.
Pensei ainda que a imagem construída de mim ganhara um arquivo na pasta ‘meus documentos’cujo título seria: ‘top secret’. Ou, na pior das hipóteses, vamos para o ‘lixo eletrônico’.
            Ele voltou. Desta vez tácito como se sentisse um certo alívio. Dirigiu-se a mim, dizendo; “olá, querida”, justamente na hora em que uma pane nas conexões apagou a minha resposta. E eu, meu caro leitor, fiquei entre o silêncio e a vontade de falar. A ligação não foi restabelecida, o sinal resolveu ocultar-se nas esferas celestiais e, enquanto o sistema voltava, meu marido chegou. Sem que ele percebesse, fui ao banheiro e me vesti. Tudo acabou em segundos, da mesma forma como começou, porém, ainda há um dado importante: meu marido resolveu tomar banho e eu o ajudei a esponjar as costas. Nessa brincadeira “infantil” dançamos em volta da fogueira, naquele espaço estreito tornando-nos índios verdadeiros.

Maria Maria Gomes

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Convite

Olá, amigos! Eis mais um livro de poemas: O Beijo de Eros. Sintam-se todos convidados!

domingo, 22 de janeiro de 2012

Mensagens do tempo que chove

O tempo é mensageiro. Traz notícias amareladas, adormecidas, cansadas de permanecerem silentes na memória desgastada da humanidade. Recordo-me das noites de chuva no Seridó, lugar de calor e sol, mas também de brisas noturnas extasiadas de prazer. Recordo-me das noites em trovoadas, desabastecidas de quietude, todavia abundando aconchego familiar. Essas lembranças chegaram-me envoltas em um lençol de retalhos disfarçado em pergaminho classicista e se desenrolaram sobre meu corpo de mulher seridoense. Lembro-me, especialmente, das noites de prazer duo: a chuva e a falta de energia elétrica que se dava ao primeiro lumiar de relâmpago no topo da Serra da Acauã. Estranho pensar nessa ultima referência como algo prazeroso, porém totalmente explicável. Quando não há luz artificial, a luz interior ilumina o ambiente. É nesse momento que as famílias do Seridó se reúnem para o brinde à chuva e sorriem, agradecendo o milagre da vida que chega. Após a ceia, olhávamos atentamente para o telhado assimétrico de juremas e telhas cozinhadas pelas mãos dos homens da terra, enquanto a chuva entoava sonatas noite adentro. A imagem chega tão nítida, real e consistente que chego a pensar na hipótese de estar numa “máquina do tempo” construída pela imaginação poética de Dom Quixote. Bastam as minhas conjecturas e analogias meio ilógicas, no entanto, plausível ao olhar de quem se embevece com a chuva que cai nessas terras de ventanias e resedás. Vejo, na cozinha da casa onde fui menina, uma tigela de sopa fresca, pão com manteiga e café sobre a mesa, forrada com uma plástica toalha com motivos frutais. Em volta da mesa, sentados em um banco longo e cru, meus pais e irmãos, feito índios cariris realizando a dança da chuva, comemoravam o que havia de vir. As minhas memórias me levaram há um tempo em que estar junto significava satisfação e solidariedade. Um tempo em que se pedia a bênção aos pais sem se sentir constrangido. Um tempo em que respeitar os mais velhos não era uma obrigação determinada pela lei de direitos humanos, mas um respeito natural pelo outro, um valor transmitido pelos pais. Nessa tarde janeiriana, onde pardais compõem seus mais dissonantes acordes, flores renascem aos primeiros pingos de chuva e nuvens engravidadas se amontoam para a luz em forma de água, recebo essa imagem autêntica via tempo mensageiro que a mim chega em forma de cheiro, frio e saudade.
Crédito da foto e texto: Maria Maria

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Borboletas, chananas, algarobas e formigas

Em tempos não tão distantes, eu observava as borboletas. O vôo que elas faziam em volta das chananas era sincronicamente perfeito assim como era perfeito o seu ciclo vital curto. Chananas e borboletas são objetos de minha mais lúdica observação. Da mesma forma que esses seres, eu observava as algarobas e formigas. Ambas viviam em um mesmo espaço e desfrutavam dos mesmos direitos, tais como a terra, as pedras, o sol e a chuva. Não havia territórios demarcados, portanto nascer e viver eram fenômenos que somente a natureza criativa concebia. Lembro-me de meu nariz: era meio redondo, porém arrebitado e tinha umas manchinhas marrões e mínimas que eu teimava em escondê-las usando o pó de arroz de minha mãe. Meus complexos de inferioridade eram, geralmente, escamoteados pela leitura. Essa era a minha singularidade seridoense; ler tudo que via. A biblioteca municipal era o ponto de apoio e meu espaço secreto onde eu guardava, certa do segredo, todas as minhas dores e expectativas. Voltando às borboletas, chananas, algarobas e formigas devo dizer que são, de certa forma, semelhantes aos humanos, porque não possuem o desenho universal e, por conseguinte, a simetria perfeita do Homem Vitruviano. O que difere é a exigência da sociedade em padronizar as estruturas psíquicas das pessoas em detrimento a uma paz social, embora esse seja um paradigma em processo de ruptura. Estou quase certa disso. O que temos a ver com esses quatro personagens? Tudo. As borboletas possuem cores, tamanhos e formas diferentes, as chananas seguem as mesmas constituições físicas dessa espécie, embora, nem sempre tenham as mesmas cores. As algarobas são especialmente singulares: têm altura diferenciada, corpo ora esquelético ora carnudo, pele áspera e contorcida, formando veios de um rio. As formigas, estas se aproximam um pouco da perfeição no sentido em que desenvolvem uma forma própria de convivência, considerando a harmonia e a partilha como fontes fundamentais para a vida em sociedade. Naquela época de árvores e bichos eu não tinha o olhar de hoje. A subjetividade vista suplantava o que, durante minha pré-adolescência, foi considerado estranho, doentio e contagioso. Essa era a imagem construída pela sociedade para as pessoas com deficiências. Os “loucos” nos amedrontavam e eu tinha um medo terrível deles. As histórias contadas e repassadas de geração a geração tomavam forma física e eu acreditava como até hoje acreditam todas as crianças. Estou adulta e da mesma maneira que nosso corpo sofre transformações metabólicas e emocionais passei a enxergar o diferente como igual. Entendi que as classificações de Darwin organizavam os seres em categorias para estudos científicos posteriores. Não pretendo, naturalmente, sugerir categorizações, apenas apontar caminhos que nos levem a uma reflexão menos técnica e mais sensível cujas respostas possam nos fazer enxergar borboletas, chananas, algarobas e formigas em cada um de nós, com nossas diferenças e semelhanças, e desfrutando dos mesmos direitos, tais como a terra, as pedras, o sol e a chuva.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011


DOIS PESOS, UMA SÓ MEDIDA

Na minha infância, desfilar em 7 de setembro tinha certos sabores: representar a pátria por civismo, para ganhar nota ou mesmo para ficar com presença na escola como se o feriado fosse letivo. Aliás, se assim o é, não vejo porque pagar o que não se deve. Mas era dessa maneira que as coisas aconteciam e ainda acontecem. O fardamento impecável, pés e unhas limpos, cabelo bem arrumado e discreto e algum acento de gratidão. Subjetividade.
Por que gratidão se é dever do estado oferecer Educação de boa qualidade, além de outros benefícios protegidos pela lei? No entanto, era aquele o substantivo abstrato de nosso tempo de desfile cívico. Às vezes à força de imposições por parte do governo vigente ou pela ideologia dos que pensam ao contrário. Uma mão dupla.
Hoje, desfilar não tem mais aquela carga de amor à pátria, porque “não se ama o que não se conhece”. Desconhecemos esta nação por dela pouco fazermos parte, o nosso valor se dá “escamoteado”. Um valor revestido de pseudo-discursos, de promessas discutíveis que alienam e entorpecem a dignidade do povo.
O que devemos comemorar?
Como enaltecer um país que tem uma saúde pública precária com hospitais lotados, uma educação fadada ao desprezo pela classe política com professores mal remunerados e sem plano de saúde? Como amar uma nação que sequer conhece seus filhos? Ou de que forma sentir-se orgulhoso vivendo em um país que desrespeita as leis? E que leis são essas que só pendem para o lado dos mais “fortes” e que os mais fracos são, muitas vezes injustiçados por uma política que não cumpre os deveres? Como exigir dos cidadãos uma postura dentro dos parâmetros da lei, quando a sociedade que aí está só exclui, renega e assola os mais pobres?
Sinto dizer que a minha bandeira não será erguida, porque não tenho “berço esplêndido”. Se muito, uma rede para dormir.

Por Eme Gomes

Foto: Google

terça-feira, 28 de junho de 2011


Caros amigos e leitores,

No dia 13 de julho de 2011, às 19h, acontecerá o lançamento de mais um livro, desta vez de poesias, o tão esperado Outônicas. Esta obra foi editada pelo Sebo vermelho, de Abimael Silva, por aí, veja a qualidade. Pois bem, faço aqui nesse e em outros espaços o convite a todos os amantes da literatura para prestigiarem mais um evento que acontecerá no Pop Lanches em Currais Novos. A festa será regada à poesia, MPB, teatro e muitas outras atrações, além da apresentação do livro. Conto com a presença de vocês!

Um abraço,

Maria Maria

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Doce beijo Seridó



Há sempre um Seridó doce em meio ao sol que incendeia, ateando fogo nas serras, mas há, sobretudo, um fio de água feito beijo doce que vai – bálsamo – pela alma de quem chora à tarde.
Sem receitas e sem moldes o Seridó se contorna de um verde singularmente verde, perceptível apenas com os olhos subjetivos de quem ama. A terra, que outrora amanhecia em desalinho, engravida-se de si mesma e faz do tempo seu aliado mais gentil. É felina e produtiva, arrebitada e sã. Remove montanhas de vegetação esquelética, aquém do Renascimento, onde a abundância das fêmeas eram estereótipos de beleza. Mas, longe dos Renascimentos e estéticas, o chão arenoso e pálido ganha cor de força e vida, de amarelo e ouro. E eu, somente poeta, de asas de cera (feito Ícaro) extasio-me de paz e de enamoramento. E eu, que pouquíssimo entendo de números em pluviômetros, de dimensões quilométricas, procuro quebrar o escalímetro, entendo apenas (e pouco) de sentimentos desnorteados ou mesmo de infância. Sim, talvez de infância eu possa dizer mais os meus dizeres. Que eu os diga, mas de forma poética. Não quero minhas dores reveladas, pois nem todos os ouvidos e olhos entendem a fala dos meus dedos. Sentir agora o novo me entusiasma, a fruta madura e docemente mel a ser degustada a cada momento em que o amor me bate à porta e me deseja como fruta em sua mesa. Quero experimentar a apoteose dos tempos vindouros com a serenidade das folhas esverdeadas da algaroba ou mesmo com o viço das felinas em chama. Ou, quem sabe, com um silo de poesia armazenado para o inverno. Não me inveja a formiga e a cigarra, ambas cantam na mesma intensidade e no mesmo tom: o do equilíbrio entre a menina e a mulher.



Maria Maria

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Feito manhãs

Nem preciso falar das idiossincrasias que dissemos certo tempo memorial. Tenho horror a detalhes, mesmo sabendo que estes dizem muitíssimo sobre nossos reais sentimentos. Mas sinto, como necessidade vital, o desejo de viver a intensidade dos atuais acontecimentos.
Hoje, minha visão encontra-se voltada para as alegrias presentes e viver essa etapa me possibilita a compreensão do que essencialmente sou. Não careço de informações adicionais sobre o que fazes com seu tempo e com suas escolhas, preciso é me abster do passado e do futuro. O presente me enriquece de verdades totalmente não absolutas. Sou incerta como as manhãs.
Se a vivência não nos legou continuidades é porque estancou o seu curso. Ou porque a hora determinada pelo destino já chegou.
Sejamos justos conosco e honestos com o universo. Fechemos, portanto, a porta para descansar. Amanhã, os pássaros cantarão novamente, mesmo que o sol ainda esteja adormecido. Não desperte o sol até que ele acorde por si e auroras, manhãs, gotas de chuva, miados de gatos e frutos da algaroba resolvam saudar as luzes inconstantes do novo dia nesse árido chão seridoense.

Maria Maria

sábado, 2 de outubro de 2010

Chuvas: Bom ou mal tempo?

 
Quando éramos crianças, brincávamos de poças de chuvas, de açudes construídos com nossas mãos pueris, com jogos de pedrinhas certeiras nas águas que desciam dos olhos de Deus.
 Época em que as chuvas eram definidas pelos meses. Se não me engano, fevereiro (mês das frutas doces), março e abril. Os meses que se seguiam eram de frio intenso até agosto que já se preparava para a “nossa” primavera. Era uma primavera tão possessiva porque Bom-dia e Boa-noite nos saudavam todos os dias pelos terreiros da pacata cidade e por isso, era absolutamente “nossa”, sem analogia a países europeus.
Interessante! Tudo tinha gosto de alegria quando a chuva chegava à região do Seridó. O que era de vida se enfeitava e as tardes familiares, os banhos de chuva nas biqueiras das lojas na Praça Tomaz Salustino e ruas do centro de Currais Novos representavam momentos singulares a todos e a cada um de acordo com a sua perspectiva.
Ao longo dos anos, percebo que o tempo se configura de forma diferente. O nosso bom tempo é aquele em que as nuvens cúmulos-nimbos se engravidam para derramar sobre nós as bênçãos dos céus, ao contrário de outras regiões, onde esse tempo de chuvas é considerado mau tempo. Enfim, a chuva no Sertão seridoense é a esperança de um povo vigoroso.
"O sertanejo é antes de tudo um forte". Citação de Euclides da Cunha em seu famoso livro "Os Sertões. A verdade é que a fortaleza desse homem do campo não se encontra apenas na força física, mas na religiosidade, na fé em São José e em Sant`Ana e na resiliência, termo que a psicologia tomou emprestado da física, definindo-a como a capacidade do indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas - choque, estresse, etc.
Apesar do aquecimento global, do efeito estufa e das ações antropogênicas (provocadas pelo homem), além de outros fatores que vêm causando ruínas e alterações no eixo da terra e em toda a sua extremidade, sentimos a dor daqueles que perderam as famílias em terremotos, em cidades próximas a vulcões em erupção. Mesmo assim, a chuva é fundamental para a produção de alimentos que beneficiarão tanto o homem do campo quanto o da cidade, a flora e a fauna sertanejas.
O tempo e as suas transformações climáticas não trarão as mesmas sinestesias: o cheiro, o som, a voz e visão daquelas tardes de chuva, porque como disse Heráclito de Éfeso "Um homem não entra duas vezes no mesmo rio. Da segunda vez não é o mesmo homem nem o mesmo rio". É claro que as emoções não se repetem, elas chegam de modos diferentes, nós as sentimos com um olhar novo, com um coração esperançoso de que o inverno nos trará sempre as boas novas, nos trará abundância e fartura na mesa do nosso povo.
E assim, caminhando por esse século de tecnologia avançada, de velocidade, de inovações agrícolas, de descobertas científicas e de questionamentos, o povo que ama a sua terra espera, ansioso, por um era de boa-venturança, de alegrias, paz e fertilidade no chão dos índios cariris.
 
 
Por Maria Maria
Escritora e Poeta
 

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Sentimentos de Amarílis

Há uma fragilidade voando feito folha seca pelo ar. Se há primavera, eu não sei. Sei apenas que estou mudando de pele como cobras sibilantes, embora tenha medo de cobras. É assim que me sinto nesse tempo de flor escondida ou flor que não desabrochou ou ainda, flor que espera seu tempo. Há anos não me apaixono por alguém, nem sinto o fogo, o desejo, o entusiasmo pelo outro. Nunca mais beijei uma boca de beijo bom. Isso me deixa diferente do que sou e penso que não estou mais anfitriã de mim mesma. Minha casa, meu porto seguro matinal, só ouve as minhas falas e meus questionamentos. Não sei em qual dimensão me encontro agora. No calendário real estou vivendo em fins de setembro deste século vinte e um, porém no meu universo paralelo e atemporal vivo indefinida como a dor de estar só. Pareço-me a folha de uma árvore asiática que vem cruzando ventos e cortando brisas para este continente tão americanamente fugaz. O que me acalma e me mantém sóbria é o cheiro de algaroba quando o redemoinho atravessa meu quintal e deixa todo telhado em cio de gata ou logo que a manhã nasce seridoana com seu aroma sertanejo de gado berrando. Enfim, mantenho-me à espera de um tempo acigânico onde eu possa envelhecer soberana e feliz.

Maria Maria

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Calendário

Não sei quando nasci, não me importam as vias do calendário cristão. Sei apenas que vivo submergida entre meu acerto final de contas comigo mesma e a premissa de que horas vivas ou mortas estejam à porta de um círculo que se esconde entre os demais. Sou medieval, confesso, e uso alquimias de fundo de cozinha. Vejo, contudo, nessas maquinarias do século vigente, a possibilidade de abrir janelas, deixando às venezianas um pouco do meu sussurro. Não quero engravidar possíveis solidões. Quero a lucidez desse dia em vislumbre. Quero estar saciada de amor à margem da ilusão.

Maria maria

domingo, 15 de agosto de 2010

A DIALÉTICA DO TEMPO

O tempo é dialético. Nós é que pensamos em torná-lo estático, imóvel e, nunca, efêmero. Desejamos retardá-lo como se assim o fosse; um retardado, um tolo, um não sei quê estabilizado.
Usamos cosméticos, achando que, só assim, impediremos de passar. Compramos adornos e nos enfiamos em clínicas especializadas em rejuvenescimento físico. Gastamos o pouco que temos em pomadas, géis, cremes e uma parafernália de fórmulas químicas como se fôssemos alquimistas da juventude desenfreada.
O mundo gira em torno de nós, mas não paramos de girar em torno dele no sentido oposto; ou talvez o fazemos, quando ludibriamos a mente na esperança de não envelhecer.
Acabamos sendo companhia indesejável de nós mesmos, por não acompanharmos o ritmo do tempo. E somos mentirosos. Mentimos a nossa idade, a dos outros e mentimos, principalmente, para nós mesmos.
Enquanto o mundo gira há em nós, no calabouço final do porão, a preocupação com a estética da alma. Esta, por sua vez, permanece fora do contexto (corpo e alma) e desaparece da unidade como se os dois elementos fossem dissociados.
O certo é que o inevitável acontece; a morte existe. Ninguém permanece jovem para sempre. Porém a eternidade é como um rio perene, jamais mata o espírito, pois o seu sentido é a existência infinita.

Maria Maria

domingo, 8 de agosto de 2010

Tentativas

Minhas tentativas frustradas de escritora me fazem acreditar que todo o dia é dia de palavra, menos os domingos, com toda a sua prepotência e arrogância de ser singular. Mas o fato é que hoje me sinto carrasca ou algoz de meus pensamentos desvairados.
Sento aqui, nessa cadeira vermelha (nem é minha cor preferida), e entro no século XXI acessando uma máquina portátil que esquenta meus dedos e engole minhas palavras. Fico mesmo sem saber o que dizer o ou escrever diante desse cinza que cobre minhas primeiras imagens transformadas em primaveras.
Minhas primeiras ideias outonais se configuram em pintassilgos e pardais, mesmo não entendendo bem de pássaros, talvez de asas, eu entenda um pouco. Tenho certo caminhar ao longo da minha vida de 43 e pegadas formam os caminhos que se transformam em experiências alquímicas de uma seridoense da gema da scheelita.

Maria Maria

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Aurora boreal

Eu tive um tempo. Um tempo “vazio”. Não havia promessas, nem expectativas, nem sonho. Talvez poesia. Sim, poesia havia. E lembro, com certa nitidez, de um vento. Não sei bem dele, se era vento norte, sul ou estrangeiro, porém era um vento docemente sensato comigo.
Naquela época eu enfrentava leões, dragões, serpentes ou o que viesse à minha frente. Talvez fosse mais inocente e não pensasse nas conseqüências dos fatos.
Esse tempo tão livre e meu era propriedade privada e lá eu abria janelas, fechava portões, guardava as torres como a proteger-me.
Eu era muito feliz naquela estação temporal e tinha caneta, papel e imaginação.
Não cuidava do jantar e nem esperava o marido. As companhias inseparáveis e mel eram minhas asas. Sim, as asas me levavam ao relógio de Londres, aos Moinhos Holandeses e as Cataratas do Iguaçu.
Eram momentos dourados porque eu tinha 18 anos e esses eram tempos de ouro, de aurora boreal.

Maria Maria

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Entre um fonema e outro

Há um pouco de mim em cada palavra sua, em cada gesto que sua boca faz, em cada espanto ou feição desiludida. Eu sinto quando me olha meio estranho, parece que mora um sertão em sua dor de morte eterna. Ou um solitário pardal se pousa inteiro sobre seus ombros.
Não me precisa a solidão! Há muitos outros corações em fragmentos e mais um, não acrescentaria nada à função de criar mais vazios. Os vazios já nos circundam todos os dias e nos ocupam os vácuos que o trabalho, às vezes, preenche.
Se suas mãos querem fechar-se em concha nessa lacuna que Eva nos legou então nos resta o riso e a dor para ser pérola.
Os açudes dançam a colheita futura e eu me festejo com flores mornas. Eu me celebro como os ramos de jurema que se deitam sobre as águas.
O texto é o espelho. O Narciso, as palavras. O que posso mais querer?

Maria Maria

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Agulhas

`naquele oceano
de palavras,
quis aportar em ti.`

Às vezes o mar suplanta a dor, sem mais, nos perdemos num vazio de águas. Quem sabe a praia em que repouso, depois de tanto nadar, abrace-me como a acariciar os sentimentos cujos reflexos d’alma são retratados por palavras, num velho diário de bordo? Quem sabe se me escrevo nas rochas, ou ainda, quem sabe não sou a própria rocha, que recebe as pancadas desse oceano desigual? Sabe-se lá se não sou o cacto que armazena a chuva a fim de, na seca, suportar a sede? Talvez eu seja algo de inalcançável a mim mesma. Ou, serei a ausência de silêncio?
Com essas analogias, retiro-me dos escombros e ressurjo majestosa no centro de uma selva de pedra ou mesmo na esfera de um cascalho interiorano, às margens vazias e pardacentas do “adormecido” rio Seridó. Se possível, desperto esse rio que dorme em mim e abundo em solo pátrio, levantando a poeira qual Saci, dos contos de “enganamentos” infantis.
Há certas horas que as almas sertanejas ecoam o cântico da solidão-presente, numa solitude apregoada de reminiscências. Renascem as almas bem no cume da dor, no ápice da saudade-angústia.
Pensei, dias outros, tão miúdos e amiúde, que aportar em ti seria a chegada, o ponto cheio da agulha que sibila no retalho de chita. Seria a conclusão do esboço, a tessitura, a forma... porém, nem todos os oceanos são navegáveis e o mar, salinizado e sem dó, massacra o amor. Porém, nem toda fissura da trama do tecido, tem a agulha que merece, visto que a ponta que penetra o algodão do meu pano de saco é, deveras, aguda e, ao contrário da lâmina que parte os lírios, perfura-me como a se cravar inteira no meu oceano de inquietude.
Mas, a escuridão noturna, companheira das sombras, perde-se entre as efemérides. O sol dá o seu ar de bem-vindo e, embora descanse ao fim da tarde, volta na manhã do novo dia, num ciclo de paciência solar e não me permite que ‘naquele oceano de palavras, eu aporte em ti’.


Maria Maria

sábado, 24 de julho de 2010

CAIXINHA DE LINHA

Tudo naquele tempo, naquela infância tinha gosto de frutas doces. As tardes, calorosas, sob um sol escaldante, excitavam o paladar ao sabor de um copo de ponche de limão. Nesta ocasião, frutas ácidas.
Lembro-me das aulas vespertinas e de lanches deliciosos preparados pela mamãe. Além da lancheira, (de lata com belos motivos infantis), carregávamos uma bolsa com cadernos pautados e milimetrados, específicos para as aulas de Matemática.
Os sete filhos dos meus pais lhes provocavam, naturalmente, uma certa despesa de material escolar e esta necessitava de uma redução, usando a criatividade. Morávamos no interior do Seridó e as dificuldades eram muitas, naquela época.
Meu pai era trabalhador autônomo e no período da estiagem, a principal preocupação era os alimentos que vinham em sacos de algodão de outros estados para serem distribuídos entre as famílias mais carentes. Não aparecia trabalho e nem renda. Foi um tempo de adversidades, de contratempos e de contrapontos, mas também de invencionice, maquinação e imaginação.
Os estojos não eram tão coloridos, adornados ou plastificados como os de hoje. Eram confeccionados por cada um de nós.
Meu pai trazia da bodega de Seu João caixas vazias de linhas de costurar e nós colávamos suas laterais e as cobríamos com tecido ou papel para embrulhar presentes. Além desse utilizávamos o famoso papel de embrulho para servir como forro, pois pregávamos sobre ele fotos de artistas de novelas, de revistas em quadrinhos ou de propagandas. A televisão ainda não fazia parte “como membro da família” em todas as casas, porque era um eletrodoméstico destinado às classes mais favorecidas. Hoje esse meio de comunicação é quase uma pessoa, pois a partir do momento em que o aparelho começa a funcionar, a atenção é voltada, exclusivamente para ele. É o momento de êxtase total, de egocentrismo (da televisão,é claro!).
Cada estojo daquele produzido com carinho e amor era sempre o melhor! Acontecia uma espécie de Superação e, ao mesmo tempo, de Conquista. Nós sentíamos uma necessidade de competir sem a selvageria dos tempos modernos, cuja busca por um lugar no pódio nos remete a um canibalismo inconsciente.
Tão bons ficavam eles que todos da escola queriam imitá-los nos mínimos detalhes. Que saudade eu sinto daquelas caixinhas emparelhadas, coladas nas extremidades com goma arábica e que guardavam lápis, borracha, régua, caneta, sentimentos, subjetividades... Guardavam momentos especiais e amigos do mesmo quilate, bem como os pingos das gotas fugidias, de dias de chuva que, esporadicamente, chegavam e molhavam o seu interior e era aí, nesse meio tom, na mesma caixinha de linha que morava, secretamente, a nossa alma úmida de infância.

Maria Maria